Um artigo virulento, mas nada infecioso





#ConhecimentoNatural

Rubrica de educação e sensibilização ambiental para a revista RaízesMag. Volume 11 _ Mai/Jun 2020


Em plena pandemia, e pleno século XXI, tenho reparado que ainda há muitas pessoas que não sabem o que é um vírus, a diferença entre estes e as bactérias, o que é uma vacina e como estas funcionam e qual a diferença de atuação das vacinas e dos antibióticos.


Por isso mesmo, e porque acho que neste momento é extremamente pertinente, resolvi dedicar a minha coluna a este tema. Francamente, acho que é informação com que todos saímos a ganhar e que nos faz falta não só em tempos de pandemia, mas sempre!

Então, sem mais “bla bla bla”, vamos a isto…


Vou começar por explicar o que é uma célula. Diz-se muitas vezes que é a unidade básica dos seres vivos. Isto porque os vários organismos vivos que existem, das bactérias a nós, são compostos ou por uma célula, ou por um conjunto destas unidades, formando organismos mais e mais complexos.


A parte mais exterior das células é uma membrana ou parede. Às células animais e vegetais chamamos eucariotas (verdadeiras células) porque têm dentro um núcleo, que através de uma membrana separa o material genético do resto do plasma e outros organelos. Às bactérias chamamos procariotas (proto células) porque não têm um núcleo, o material genético está “à deriva”, misturado no resto do plasma e organelos (os organelos são para a célula como os nossos órgãos são para nós). As células multiplicam-se, geram energia e gastam energia, etc. sozinhas.


Um vírus não tem parede, membrana nem núcleo celular. Não é uma célula. Apesar de poder ter muitas formas diferentes, no fundo, é uma cápsula proteica que armazena material genético. À volta desta cápsula pode haver um segundo invólucro, feito de lípidos e proteínas e que dita quais as células que este vírus infetará. O vírus está inerte até encontrar uma célula que consiga infetar, ou seja, até que encontre uma célula hospedeira. Um vírus não tem metabolismo próprio, é um parasita intracelular (dentro da célula) obrigatório.


Para tentarem ter uma noção de tamanhos, as bactérias medem menos de 8 micrómetros (1µm = 0,001mm). Os vírus medem menos de 0,2 µm. É muito difícil de imaginar, não acham?


Hoje conhecemos cerca de 3.600 espécies de vírus. As proteínas que compõem a cápsula são especificas para cada tipo de vírus, e são elas que ditam os organismos /células que os vírus conseguem infetar, sendo que cada tipo de vírus ataca células específicas. Por exemplo uns infetam células pulmonares, outros das glândulas salivares, outros estomacais, etc.


Uma vez encontrado o hospedeiro, ele injeta o seu material genético na célula, ou engana-a através das proteínas da sua cápsula e é englobado, como que engolido, pela célula. Uma vez lá dentro, apodera-se dos recursos desta para se multiplicar. Muitas vezes o vírus consegue mesmo modificar o metabolismo da célula parasitada, podendo levar à degeneração e morte do organismo. O termo vírus aplica-se àqueles que invadem eucariotas. Aos que invadem bactérias chamamos bacteriófagos ou fagos.


As bactérias, são organismos unicelulares extremamente importantes para os ecossistemas. Muitas vivem em simbiose no interior de outros organismos e são essenciais à sua sobrevivência. Nós por exemplo temos várias bactérias essenciais nos intestinos e mucosas. Outras, por sua vez, são altamente nocivas e causam doenças como tuberculose, lepra, tétano, sífilis, etc.


Para combater doenças bacterianas, usam-se os antibióticos. Os antibióticos são substâncias químicas, naturais ou sintéticas, que eliminam ou impedem a multiplicação das bactérias, permitindo tratar a infeção. Quando entram na corrente sanguínea, atacam a parede, membrana ou organelos das bactérias, levando à sua destruição. O seu uso deve ser feito com precisão e durante o tempo certo, que varia com o antibiótico e com a bactéria, sobre pena das bactérias desenvolverem resistências. Além disto, os antibióticos atacam não só as bactérias nocivas, mas também aquelas que nos são essenciais e nos ajudam a mantermo-nos saudáveis.


Assim, os antibióticos não atacam os vírus, e por isso não têm qualquer ação sobre infeções virais, como a gripe. Podem, no entanto, ser prescritos pelo médico quando, por debilitação do organismo, surge uma infeção bacteriana secundária, associada à infeção viral, como por exemplo uma faringite.


Como os vírus usam a maquinaria das células hospedeiras, tornam-se muito difíceis de matar. As soluções para combater infeções virais são as vacinas, para prevenir infeção, e algumas drogas que combatem os sintomas da infeção (mas não a infeção em si).


As vacinas são produtos feitos em laboratório. Não são mais do que bactérias ou vírus mortos ou atenuados, ou toxinas, como venenos de certos animais, inativadas. Assim, as vacinas têm substâncias incapazes de provocar a doença, mas capazes de levar o nosso organismo a produzir anticorpos (proteínas produzidas por células especiais do sangue que identificam e atuam contra agentes causadores de doenças) para essas mesmas doenças, permitindo que o organismo tenha defesas se um dia mais tarde entrar em contacto com esses micro-organismos. Foi através das vacinas que se conseguiu diminuir e quase erradicar na europa doenças como a poliomielite, a varíola ou a raiva humana.


Mas uma pessoa pode entrar em contacto com um vírus para o qual ainda não tem anticorpos, ou porque nunca foi antes infetado, por porque não foi vacinado. Ou com uma toxina, porque foi mordido por um animal venenoso ou comeu um alimento tóxico. Algumas destas situações podem colocar a pessoa numa situação de doença ou crise aguda, ou seja, a infeção ou toxina pode causar uma reação muito forte e rápida, e não dar tempo a que o organismo produza anticorpos e combata sozinho a infeção.


Para algumas destas situações, existem os soros. Estes são soluções que contêm os anticorpos para infeções e toxinas específicas, produzidos por outras pessoas. As vacinas têm antigénios que levam o organismo a produzir anticorpos, e têm longa duração no organismo, algumas duram mesmo a vida toda. A vacina é uma prevenção. Já os soros têm os anticorpos já prontos, mas como não foi o organismo que aprendeu a produzi-los, eles têm uma ação rápida, mas temporária. O soro é uma cura para uma situação aguda.


O facto dos vírus se adaptarem a condições ambientais e do seu ADN se alterar com frequência (as chamadas mutações genéticas), faz com que ele se transforme basicamente num subtipo do vírus original, e assim, possivelmente as vacinas feitas contra o vírus original deixam de fazer efeito sobre este novo subtipo.


Certas doenças, quer bacterianas quer virais, precisam de um vetor para fazer a primeira contaminação em humanos. O vetor pode ser por exemplo um inseto. O inseto em si não provoca doença, se não estiver infetado a sua picadela não nos afeta. Mas se o inseto carregar em si o vírus, a sua picadela vai transmitir-nos o vírus. A partir daí, e dependendo do vírus/ bactéria, este pode ou não ser transmitido desta pessoa para outras. Caso seja, esta transferência pode ocorrer de várias formas.


Certos vírus transitam apenas entre indivíduos da mesma espécie, outros podem afetar espécies diferentes. Mais incomum, é um vírus que infete um grupo animais, (mamíferos, peixes, répteis, insetos) causar doença também noutro. Mais incomum ainda é um vírus que infete um reino (bactérias, fungos, plantas, animais) infetar também outro.


O termo “virulência” reflete a capacidade de um vírus causar doença independentemente do sistema imunitário do hospedeiro. Existem vírus menos virulentos, como o da gripe sazonal, outros mais, como o da varíola. Claro, não é apenas uma partícula viral que causa a doença numa pessoa, é preciso uma certa carga viral, que quanto maior for, mais aumenta a virulência. Outros fatores que a influenciam são a idade, a forma como entrou no hospedeiro, e o sistema imunitário de cada um.


Para o vírus infetar um organismo, tem de encontrar uma porta de entrada. Nos humanos, as três principais são a pele, a mucosa do trato respiratório e a do trato digestivo. Outras possíveis são as mucosas dos olhos e do trato urogenital. Outra possibilidade é entrarem diretamente na corrente sanguínea por trauma, como uma mordedura, uma injeção infetada, o toque de uma ferida aberta numa superfície infetada, etc. A este tipo de transmissão chama-se horizontal. Existe também a transmissão vertical, que é aquela que acontece da mãe para o embrião ou feto durante a gestação, nascimento ou amamentação. Mas nem todos os vírus conseguem transmitir-se verticalmente.


Alguns vírus ficam no sangue, ou no sangue e mucosas. Outros, são expelidos na urina e dejetos. Outros ainda, transmitem-se por via aérea, ficam suspensos no ar e nós contaminamo-nos ao respirar ar contaminado. Outros, são demasiado grandes/pesados para isso e ao serem expelidos pela tosse, fala ou espirros, são projetados uma certa distância, mas acabam por cair no chão ou outras superfícies, onde sobrevivem um certo período. Por isso, manter uma distância de x metros das outras pessoas, adequada a cada vírus, é uma boa forma de prevenir a propagação, de contaminar as outras pessoas e de deixar que sejamos contaminados.


Outras boas formas de o fazer, são lavar várias vezes as mãos, e evitar que as partículas carregadas de vírus que expelimos ao falar, tossir ou expirar caiam em cima de outras pessoas ou de superfícies com que outras pessoas vão estar em contacto. E que as das outras pessoas nos contaminem a nós! Como o podemos fazer? De certeza que já adivinharam: Dobrando o braço à frente do nariz e boca quando tossimos e espirramos. Usando uma máscara quando estamos em locais fechados ou com pouca circulação de ar e com outras pessoas.


Claro, quando usamos a máscara não devemos estar sempre a tocar nela para a ajeitar ou deixar circular o ar entre ela e a nossa cara, porque estamos a tocar numa superfície contaminada e muito perto dos olhos. As máscaras descartáveis devem ser usadas apenas durante o período para o qual foram desenhadas (isto depende da sua espessura, material, permeabilidade) e depois descartadas de forma correta. As máscaras reutilizáveis, depois de usadas durante um certo período devem ser bem arejadas, se possível ao sol, durante o tempo requerido para que o vírus morra sem um hospedeiro, ou desinfetadas com lixívia.


Desde que se conhecem os vírus, está aberto o debate sobre se estes devem ser considerados seres vivos ou apenas partículas infeciosas. Muitos argumentam que um ser vivo deve ser capaz de importar nutrientes e energia do ambiente, ter metabolismo próprio e fazer parte de uma linhagem contínua, tendo origem em organismos semelhantes a si e gerando outros seres semelhantes a si. Os vírus preenchem alguns destes critérios, já que como qualquer ser vivo fazem parte de linhagens contínuas, reproduzem-se e evolvem em resposta ao ambiente através de seleção. Mas, ao contrário dos seres vivos eles não têm metabolismo próprio e não sobrevivem fora de uma célula hospedeira. Mas aqui argumenta-se que todos os seres vivos dependem de outros para sobreviver. Muitos levam ainda em consideração a presença em massa de vírus em todos os reinos da vida, a sua origem aparentemente tão antiga como a da vida, a sua importância na história da natureza, etc. No final das contas, este debate depende de outro ainda mais antigo: o que é a vida? Assim, o consenso sobre se os vírus são seres vivos ou não, manter-se-á no futuro e para já alguns consideram-nos organismos vivos, outros apenas partículas infeciosas do mundo natural.


Espero ter conseguido ajudar-vos a perceber um pouco melhor o mundo dos vírus e como estes interagem connosco!