Todos podemos... compostar!







#ConhecimentoNatural

Rubrica de educação e sensibilização ambiental para a revista RaízesMag.

Volume 10 _ Mar/Abr 2020


Estamos de parabéns! A nossa querida Raízes Mag chegou ao seu 10º número!


Sendo o tema deste número tão especial dedicado às várias soluções que existem em Portugal para que todos consigamos viver uma vida de alguma forma mais sustentável, decidi escrever sobre um tema que me é muito querido, que está ao alcance de todos nós e que em muito ajuda à sustentabilidade na nossa cidade, freguesia, conselho e país... a compostagem!


Na natureza, não há produção de lixo. Quando um animal ou uma planta morre, entram em ação os organismos decompositores, sejam eles outros animais, fungos ou bactérias. Estes organismos são essenciais para manter os ecossistemas limpos e ajudam a evitar a propagação de doenças. Eles transformam os organismos mortos, restos deles, e até mesmo fezes, em água, sais e nutrientes, de que outras bactérias, fungos e plantas se vão alimentar. Assim se fecha o ciclo da matéria orgânica.


Quando compostamos, estamos a transportar este ciclo para os nossos quintais e apartamentos, à escala que se adapta a nós. Aqui o objetivo é transformar os nossos resíduos orgânicos sólidos vegetais em adubo para plantas, hortas, jardins, etc. A compostagem é a melhor forma de redução de resíduos orgânicos em aterro.


Uma das grandes vantagens da compostagem para a sustentabilidade ambiental global é o facto de que esta prática ajuda a mitigar as alterações climáticas.

Como? Vejamos: quando colocamos os restos orgânicos das nossas refeições, assim como comida que deixamos estragar, no lixo comum, ela vai parar aos aterros. Aqui, decompõe-se sem oxigénio, e as reações que ocorrem neste ambiente levam à produção de toneladas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Estes são gases com efeito de estufa, contribuindo para o avançar das alterações climáticas.

Contráriamente, quando os nossos restos são compostados, decompõem-se na presença de oxigénio, e transformam-se em composto, um adudo natural riquíssimo.


As vantagens da utilização do composto:

  • Promove o desenvolvimento das plantas em vaso, hortas, jardins e paisagens.
  • Estimula o desenvolvimento das raízes, ajudando muitíssimo a que os solos sejam menos afetados pela erosão.
  • Aumenta a variedade, quantidade e qualidade de nutrientes presentes no solo, levando à menor necessidade de usar fertilizantes químicos.
  • Melhora as características do solo, em especial de solos argilosos e arenosos, permitindo que sejam usados para algumas culturas antes impossíveis.
  • Atua como uma esponja, retendo água e nutrientes durante mais tempo, o que diminui a necessidade de rega.
  • Tem microorganismos que ajudam e protegem a planta - são fungicidas naturais.
  • Ajuda a manter a temperatura e acidez do solo estáveis.


Estima-se que em 2056 sejamos aproximadamente 10 mil milhões, com 65,2% da população a viver nas cidades. Isto significa que iremos ter um estilo de vida acelerado, hiper prático e que gerará muito desperdício e lixo. Segundo a Eurostat, entre 1995 e 2017, a quantidade de lixo municipal da EU-28 que foi compostado aumentou em 195%. Estes valores são claramente positivos, mas, no entanto, são uma estatística, o que significa que a maioria dos países tem ainda um longo caminho a percorrer.


Em Portugal, como em todo o mundo, desde sempre se faz compostagem, mas esta era uma prática que aparecia nas áreas rurais, não nas cidades.


Segundo o relatório de 2019 da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a quantidade de resíduos urbanos (RU) produzidos em Portugal continental diminuiu de 2010 para 2013, mas daí até 2018 voltou a aumentar e, nesse ano, atingiu mais de 4 800 000 t, com 1,38 Kg por pessoa todos os dias. Destas, 1 034 318,369 t são resíduos urbanos biológicos (RUB), ou seja, resíduos que poderiam ter sido compostados, mas em vez disso foram para aterro.


Anualmente, em Lisboa, cada pessoa produz cerca de 400 a 500 Kg de resíduos indiferenciados, dos quais mais ou menos 240 Kg, ou seja, cerca de metade, são resíduos orgânicos compostáveis.


Felizmente, existem já diversas soluções que nos permitem compostar até em pequenos estúdio-apartamentos, sem maus cheiros nem grandes complicações.


Existem 3 grandes tipos de compostagem: Grande, Média e Pequena escala.

Para qualquer tipo de compostagem, existem fatores que são essenciais manter debaixo de olho, porque se um deles sair dos parâmetros em que se deve encontrar, isso pode significar que a nossa pilha de compostagem fica estragada e que teremos de recomeçar todo o processo. Estes parâmetros são: organismos, água, oxigénio, temperatura, matéria verde e matéria castanha.


Grande escala

Este tipo de compostagem é feito a nível nacional, em grandes quintas de compostagem, e recebe todo o tipo de RUBs, incluindo restos de origem animal.


Média escala

É o tipo de compostor que alguns de nós estão habituados a ver em alguns quintais. Devem ser mantidos à sombra e já não aceitam todo o tipo de comida.

Aqui podem colocar-se restos de comida de origem vegetal, restos do quintal, jardim, hortas... mas já não podemos colocar restos de origem animal, óleos ou gorduras.

Nestes compostores existe uma boa variedade de organismos que consegue aceder aos restos e ajudar a transformá-los em composto. Quando bem feita, esta compostagem não gera maus odores.


Pequena escala

Este tipo de compostagem pode ser feito em qualquer apartamento, até num T0, sempre sem cheiros! Outra grande vantagem deste tipo de compostagem, é que permite não só recolher o adubo sólido, como um adubo líquido, que serve para rega.

Estes compostores recebem apenas restos de origem vegetal. Não recebem plantas doentes nem ervas daninhas, com sementes ou raízes.


Dentro da compostagem de pequena escala, existem duas opções principais:

VERMICOMPOSTAGEM

Aqui, as nossas principais aliadas são as minhocas californianas, qua apesar do nome, são nativas do nosso país. Estas minhocas são muito diferentes das que encontramos habitualmente nos jardins e hortas! São muito mais esguias, mais vermelhas, mais adaptadas a viver em cativeiro e mais tolerantes a serem manuseadas. Tal como outras minhocas, elas são sensíveis à luz, pelo que se mantêm longe dela.


MICROBIANA

Aqui contamos com a ajuda de várias bactérias e fungos unicelulares, que não são visiveis nem causam maus cheiros. Claro, também não são nocivos para a nossa saúde, podemos mexer à vontade!