De onde vem a comida? A importância dos polinizadores



#ConhecimentoNatural.

Rubrica de educação e sensibilização ambiental para a revista RaízesMag. Volume 8 _ nov/dez 2019

Antes de mais, é preciso perceber que as plantas com flor se reproduzem, tal como os animais, pela junção de uma célula feminina com uma célula masculina.


A célula masculina, contida no pólen produzido nas estruturas masculinas da flor, é transportada para a estrutura feminina da flor e no ovário fecunda o óvulo. Daqui se formam as sementes. As paredes do ovário, que pode ser visto como o útero dos animais, engrossam e formam os frutos.


Este processo de transporte do pólen até ao ovário, chama-se polinização. Muitas espécies de plantas têm indivíduos femininos, só com flores femininas, e indivíduos masculinos, só com flores masculinas. Nalgumas espécies, as plantas têm flores de ambos os sexos. Noutras espécies ainda, todas as flores têm órgãos dos dois sexos, mas nem sempre se conseguem autofecundar.


A polinização da vasta maioria das flores está a cargo dos agentes polinizadores. Estes podem ser o vento e a água, mas para cerca de 90% das plantas, quer selvagens quer de culturas agrícolas, os polinizadores são animais.


As flores produzem néctar, que é alimento para estes animais. Quando o vão recolher para se alimentarem, ficam sujos de pólen, que transportam de flor em flor enquanto se alimentam. Por esta razão, as plantas desenvolveram estratégias para ajudar os animais a chegar ao néctar, e ao pólen! Uma são verdadeiras setas e pistas de aterragem a indicar o caminho para os nectários, que podem ser manchas, pintas e riscas visíveis a olho nu, outras apenas visíveis com luz ultravioleta (que faz parte do espectro visível para muitos animais). Outra estratégia é o seu odor. Não somos só nós que gostamos do cheiro a flores!


Estes podem ser aves, como os colibris, ou pequenos mamíferos, como morcegos ou ratos de campo, mas a maioria são insetos. Em Portugal, entre espécies de abelhas, abelhões, vespas, borboletas, escaravelhos e formigas, existem mais de 1.000 espécies de insetos polinizadores.


O pólen é o único alimento das larvas de abelha. Talvez esta seja a razão delas serem as responsáveis por 80% da polinização feita por insectos. Estão identificadas em todo o mundo cerca de 25.500 espécies de abelhas, incluindo as abelhas sociais, as solitárias e os abelhões.


Outra curiosidade, é que as abelhas de uma colmeia são fiéis à espécie de planta que visitam. Uma colmeia que recolhe pólen de alfazema, por exemplo, não recolhe de mais nenhuma flor.


Enquanto diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), José Graziano da Silva destaca o papel essencial das abelhas e outros polinizadores na manutenção de um planeta saudável, pois prestam um grande serviço de conservação da biodiversidade. Reconhece também o papel da apicultura, e dos polinizadores no aumento da segurança alimentar, melhoria da nutrição, e na luta contra a fome.


Com a ação dos polinizadores, plantas da mesma espécie mas que estão distantes umas das outras conseguem cruzar o pólen, aumentando assim a sua variabilidade genética, essencial para que uma espécie sobreviva a catástrofes ambientais ou doenças.


As abelhas, e também outros insetos polinizadores, são ainda importantes para conservação da biodiversidade devido a outro fator importante: elas são uma importante parte da dieta de várias aves e répteis insetívoros. Algumas destas aves e répteis são endémicos da Península Ibérica (existem apenas aqui) e outras estão classificadas como “ameaçadas” em Portugal ou na Europa  no Livro Vermelho da IUCN. Quando os polinizadores desaparecerem de uma região, estes animais também são gravemente afetados, e acabam por reduzir os seus números ou mesmo deixar de habitar essa região, começando uma cascata de eventos.


Para a agricultura os polinizadores têm um papel indiscutivelmente fundamental. Mais de 80% das culturas agrícolas mundiais precisam de polinização para dar semente. Este processo permite ainda aumentar o valor comercial dos frutos, o teor de óleo das sementes, o tempo de conservação dos frutos, entre outros benefícios. A polinização feita por polinizadores naturais (em vez de ação humana ou mecânica) aumenta a produtividade das culturas entre 35%, no girassol, e 500%, nas cebolas. Este é, como já vimos, apenas um dos serviços dos polinizadores nos ecossistemas, mas é talvez aquele a que é mais fácil atribuir valor económico. O valor anual dos polinizadores está estimado em 22 biliões de € na Europa e 200 biliões a nível mundial.


Nos EUA os apicultores rentabilizam em cerca de 50% o seu rendimento com contratos de serviço de polinização feita pelas suas colmeias em campos agrícolas. Em Portugal celebrar este tipo de contrato ainda não é um hábito, excepto para os apicultores de maior dimensão.


A FAO juntou dados da América do Norte e da Europa, e chegou a uma conclusão terrível: estamos a perder, para sempre, várias espécies de polinizadores.


Abram Bicksler é o investigador principal em projetos sobre polinizadores do departamento de agricultura da FAO. Segundo ele, este facto deve-se a uma junção de fatores a acontecer ao mesmo tempo, todos eles impulsionados pela atividade humana: mudança climática, perda de habitat, o uso excessivo de pesticidas. Associadas a estes surgiram ainda muitas doenças e pestes que estão a afetar os polinizadores.


Nas cidades, os melhores refúgios para os polinizadores são as hortas urbanas, e os jardins domésticos, desde que plantados com plantas nativas - que ocorrem naturalmente nessa zona. Tal como um leão não come qualquer outro animal e um cavalo não come qualquer planta, os insetos também não bebem o néctar de qualquer flor. É preciso que ambos, inseto e planta, sejam as corretas, tenham evoluído juntas. Canteiros, hortas e terrenos com plantas nativas fornecem-lhes diversas fontes néctar, pólen e água, e abrigo para reprodução, proteção contra predadores e hibernação. Além disto, a floração da planta tem de estar sincronizada com a altura certa do ciclo de vida destes insetos.


Quanto mais espaços assim existirem nas cidades, mais insetos vai haver, estes atraem aves e répteis que os comem. Assim começa a criação de corredores verdes nas cidades, promovendo a biodiversidade.


Nas zonas de atividade agrícola é necessário passar a apostar num uso de solo em mosaico, em que as áreas naturais e com espécies florais selvagens se intercalam com as agrícolas criando zonas de abrigo para os polinizadores e ajudando a conservar a biodiversidade.


Essencial é também a drástica redução do uso de pesticidas e herbicidas que comprovadamente contribuem imenso para o declínio destas espécies e da biodiversidade.


Segundo Dave Goulson, entomólogo e conservacionista inglês, os insetos polinizadores mais fáceis de identificar em Portugal são:

Abelha - Apis mellifera

Abelha solitária - Panurgus sp.

Abelhão - Bombus terrestris

Mosca das flores comum - Episyrphus balteatus

Escaravelho das flores - Oxythyrea funesta

Cauda de andorinha - Papilio machaon


#Tutisfore - conhecer para proteger

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